Afetações dos espaços assombrados na experiência urbana do Recife
Resumo
O presente artigo, de natureza ensaística, insere-se no campo dos estudos urbanos, que reconhecem a temporalidade como eixo central para a compreensão dos processos históricos, dos ritmos sociais e das transformações espaciais da cidade. O ensaio examina as lendas integrantes do que a contemporaneidade passou a conhecer por Recife Assombrado como elemento estrutural para a elaboração imaginária da cidade, e como um arcabouço simbólico fundamental para a produção da identidade e memória citadinas. Propõe-se a leitura desses espaços do assombrado à luz da distinção entre sagrado e profano formulada por Mircea Eliade (2018), tomando o sagrado como espaço capaz de instaurar uma rotura cósmica outorgante de orientação no mundo. Nesse sentido, os edifícios assombrados são interpretados como espaços intersticiais: tocados por uma dimensão do sagrado, mas distintos de outras espacialidades consagradas — como as igrejas —, por conservarem um resíduo inapreensível e que pode ser situado no campo do Real lacaniano e/ou associado ao infamiliar (das Unheimlich) freudiano (FREUD, 1919/2019) de sorte a suscitar inquietação e estranhamento. Ao tensionar os espaços assombrados como roturas entre tempos distintos, o artigo evidencia-lhes a potencialidade de conectar e sobrepor diferentes temporalidades urbanas, revelando permanências, fantasmas e descontinuidades que atravessam a experiência da cidade. Para mais, escrutina-se os rebatimentos entre a construção simbólica e imaginária dos espaços do assombrado, e a estruturação da subjetividade dos seus habitantes, a partir de diálogos entre a teoria psicanalítica e a teoria da arquitetura. Assim, o ensaio contribui para ampliar o debate sobre as relações entre temporalidade, imaginário urbano e produção do espaço.
Downloads
Referências
ARAUJO, F. M. H. Da semiose dos lugares do Recife na permanente renovação do folclore assombrado citadino. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Urbano) - Centro de Artes e Comunicação, Universidade Federal de Pernambuco. Recife, 2023.
CASTRO, J. D. Ensaios de geografia humana. 4. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1966.
CASTRO, J. D. Homens e Caranguejos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1967.
CAVALCANTI, Carlos Bezerra. O Recife e suas ruas: se essas ruas fossem minhas. Recife: Edições Edificantes, 2002.
DARDEL, E. O homem e a terra: natureza da realidade geográfica. São Paulo: Perspectiva, 2015.
ELIADE, M. O Sagrado e o Profano: a essência das religiões. 4.ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2018.
FREUD, S. Totem e tabu: algumas concordâncias entre a vida psíquica dos homens primitivos e a dos neuróticos. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2013. (Original publicado em 1913).
FREUD, S. O Infamiliar. Belo Horizonte: Autêntica, 2019 (Original publicado em 1919).
FREYRE, G. Assombrações do Recife Velho. 5. ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000 (Original publicado em 1958).
FREYRE, G. Casa-Grande e Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriaracal. 51. ed. São Paulo: Global, 2006.
FREYRE, G. Sobrados e Mucambos: decadência do patriarcado rural no Brasil. Rio de Janeiro: Nacional, 1936.
FUSTEL DE COULANGES. A Cidade Antiga. São Paulo: Martin Claret, 2002.
HUSKINSON, L. Arquitetura e psique: um estudo psicanalítico de como os edifícios impactam nossas vidas. São Paulo: Perspectiva, 2021.
LACAN, J. O simbólico, o imaginário e o real (1953). In: LACAN, J. Nomes-do-pai. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, pp. 09-54.
LACAN, J. O Seminário, Livro 7: a ética da psicanálise (1959-1960). Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
LACAN, J. O mito individual do neurótico ou Poesia e verdade na neurose (1952). In: LACAN, J. O mito individual do neurótico. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, pp. 11-44.
LEITÃO, L. Quando o ambiente é hostil: uma leitura urbanística da violência à luz de Sobrados e Mucambos e outros ensaios gilbertianos. 2.ed. Recife: Editora da UFPE, 2014.
LEITÃO, L. A cidade diz tudo o que você deve pensar: notas para uma discussão teórica sobre a noção de significância. Arquitextos, ano 21, n.249.01, fev. 2021.Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/21.249/8005. Acesso em: 01 out. 2025.
MELO, R. B. Malassombramentos: Os arquivos secretos d'O Recife assombrado. Recife: Bagaço, 2010.
MUMFORD, L. The City in History. New York: Harcourt, 1989.
OLIVEIRA, W. D. Geologia da planície do Recife: contribuição ao seu estudo. Recife: Oficinas Gráficas do Jornal do Comércio, 1942.
POHL, L. Object-disoriented geographies: the Ghost Tower of Bangkok and the topology of anxiety. Cultural Geographies, v.27, n.1, p.71-84, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1177/1474474019864984. Acesso em: 01 abr. 2026.
PONTUAL, V.; MILET, V. Olinda: Memória e Esquecimento. Revista brasileira de estudos urbanos e regionais (ANPUR), Salvador, 2001, p. 39-57.
ROUDINESCO, E. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
RYKWERT, J. A ideia de cidade: a antropologia da forma urbana em Roma, Itália e no mundo antigo. São Paulo: Perspectiva, 2006.
Copyright
Copyright (c) 2026 Felipe Ibiapina, Felipe Araujo

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International License.